O protagonista do romance, e também da série, é Atticus Turner. Ele é um veterano da Guerra da Coreia, que passou por muitas coisas nesse ponto de conflito e olhou a morte nos olhos mais de uma vez. Mas, ao finalmente retornar à pátria, ele percebe que é um americano plenamente qualificado para morrer pela América, mas de forma alguma um cidadão de pleno direito para viver nela com tranquilidade e felicidade… A lei, de autoria do tristemente famoso Jim Crow, que normalizou a segregação racial na vida cotidiana, está em pleno vigor, e ainda faltam quase quatorze anos para sua revogação… Por outro lado, a vida se torna muito mais interessante, embora nem um pouco mais fácil, quando a família de Atticus começa a receber ajuda de um parente distante chamado Caleb Breitwhite. Sua ajuda, é verdade, não traz mudanças significativas no plano material, mas os membros da família descobrem uma série de coisas misteriosas e emocionantes — em suas vidas surgem sociedades secretas, cadáveres que voltam à vida, fantasmas, monstros de outras galáxias e maldições assustadoras… Agora, vamos relembrar quem é Lovecraft. Howard Phillips Lovecraft é um clássico americano do gênero fantástico, com uma ideologia racista fortemente ideologia racista. Na Rússia, de certa forma, não era muito comum dar ênfase a esse aspecto de sua obra; no entanto, para qualquer americano, isso é absolutamente evidente. E Matt Ruff inicia um jogo bastante sutil e ambíguo, não apenas com o mundo de mitos emocionantes de Cthulhu criado por Lovecraft, mas também com a própria personalidade do autor, revelando conhecidos todos os aspectos desagradáveis de sua visão de mundo… Voltemos ao enredo de “A Terra de Lovecraft”. Os acontecimentos se desenrolam no Sul dos Estados Unidos. O protagonista, Atticus, adora ficção científica e fantasia e é apaixonado por Lovecraft, a quem declara seu amor. Literalmente dez minutos depois, ele recebe uma carta na qual contém um convite para uma certa cidade chamada Arkhem, e ele parte imediatamente para lá. Ao chegar, descobre-se que a cidade, na verdade, se chama Arphem, e lá eles conhecem um tal de Breightwight, que se apresenta como um parente distante — bem, muito distante — deles. E isso marca o início de um jogo literário impressionante, que se entrelaça com a drama social e histórico. A esmagadora maioria dos personagens do livro “A Terra de Lovecraft” é negra, e o enredo demonstra claramente que ter a pele negra neste país não é apenas difícil, mas totalmente insuportável. Além dos problemas das pessoas negras, questões de gênero também são abordadas de forma tangencial, mas o foco principal continua sendo a questão do racismo. Há uma sensação constante de que o perigo vem de tudo — tanto do mundo real quanto do mundo místico. E, no geral, nem dá para entender direito o que é realmente mais assustador: um fantasma, vestido com um lençol branco ou um membro da Ku Klux Klan com roupas mais ou menos semelhantes e um capuz no rosto. O monstro Shaggot, que não tem forma definida, ou simplesmente um policial entediado em seu posto, que não gostou da cor da pele de alguém, e isso já é motivo suficiente para dar um jeito naquele cuja pele não é tão clara quanto a dele… Estrutura do livro: O romance “O País de Lovecraft” é construído como uma série de contos independentes, ligados entre si apenas por personagens em comum. No entanto, o gênero de cada conto difere dos demais, remetendo o leitor a um ou outro tipo de terror. E no centro de cada um há um novo protagonista. Contudo, todos eles estão ligados por um enredo comum que permeia toda a obra. No centro dessa linha condutora está o próprio Caleb Breitwhite, cuja pele é de um branco ofuscante, mas que pratica magia negra. E a presença dessa brancura impressionante desvia a atenção dos demais personagens dos problemas da segregação. Em resumo, essa história, contada na perspectiva de pessoas negras, mostra que o mundo em que elas vivem é muito mais assustador do que qualquer obra de terror com magos negros e monstros aterrorizantes; por isso, os próprios horrores parecem empalidecem diante da realidade. O próprio autor apresenta o romance como um “guia de segurança para negros”. E o mais interessante é que tal guia realmente existiu.