Viva quanto quiser, aprenda o tempo todo, mas vai morrer mesmo assim como um tolo. Essa velha sabedoria popular se encaixa perfeitamente no caso do Eddie, da loja de artigos esportivos. No que diz respeito a alcançar o sucesso na vida, ele não é exatamente um vencedor, mas também não passa por dificuldades financeiras — a loja é dele. Já no campo amoroso, as coisas não estão dando certo, e sua ex-namorada agora vai se casar com outro. Eddie não se abala muito com isso, embora já tenha completado quarenta anos e tenha o cabelo cheio de fios brancos. Os irmãos Farrelly, em seus trabalhos, apesar da leveza do enredo e da abundância de humor escatológico, nunca se propuseram a construir a trama em torno de adolescentes, como costumam fazer outros diretores, criando uma oferta que atenda à demanda. Afinal, é compreensível que filmes como “A Garota dos Meus Pesadelos” sejam assistidos principalmente por jovens, que preferem ver seus colegas da mesma faixa etária na tela. Os Farrelly, porém, não se deixam levar pelo público-alvo e criam enredos principalmente sobre adultos, pessoas já estabelecidas, que, no entanto, se envolvem em situações “escatológicas” com a mesma frequência que os jovens. Esse aspecto relacionado à idade torna as comédias de Peter e Bobby diferentes das demais. Além disso, é sempre interessante observar adultos se comportando como crianças. Em “Eu, Eu e Mais Uma Vez, e Irene”, o personagem interpretado por Jim Carrey sofria de dupla personalidade e, por isso, comportava-se, de vez em quando, de uma maneira que não se espera de um pai de três filhos. Aqui, porém, um tal de Eddie, interpretado por Ben Stiller, embora não sofra de surtos, aos quarenta anos ainda não tem esposa nem filhos. E tudo isso não é por falta de oportunidades — simplesmente, por trás da máscara de um respeitável gerente de loja esconde-se um menino infantil que, mesmo aos quarenta, ainda não aprendeu a lidar com pessoas do sexo oposto. A falta de experiência na escolha de parceiras para relacionamentos duradouros se torna extremamente grave quando uma dessas mulheres, após seis semanas de namoro, se torna sua esposa. E aquela criatura encantadora, que leva roupas para a lavanderia no Dia dos Namorados, transforma-se naquele mesmo pesadelo. Os irmãos Farrelly vêm fazendo comédias centradas em idiotas há bastante tempo e já adquiriram bastante experiência nesse gênero. Seu trabalho de estreia — “O Burro e o Mais Burro”, de 1996 — alcançou status de cult em amplos círculos e lançou a carreira de Jim Carrey. O enredo simples sobre dois personagens com QI que mal passa do nível do rodapé funcionou muito bem com o público e indicou aos estreantes em que direção deveriam seguir. Por isso, todos os seus filmes subsequentes contam a história de idiotas que se metem em situações não muito legais e sempre cômicas, pela simples razão de que o botão de ligar do cérebro deles está na posição “desligado”. Seguiram-se “O Animador” (uma cópia de “O Burro e o Mais Burro”) e “Todos Loucos por Mary”, no qual Ben Stiller trabalhou pela primeira vez com os irmãos diretores em um projeto de longa-metragem. Os Farrelly evoluíram, amadureceram (na época da estreia, eles nem tinham quarenta anos), e os personagens de seus filmes foram gradualmente se afastando da bobagem caricata em direção à mesma bobagem, mas mais realista. Em “Eu, Eu Mesmo e Irene”, todo mundo é sensato e vai trabalhar (ou estudar) todos os dias, embora alguns, sobrecarregados pelas adversidades da vida, tenham surtos de vez em quando. Já para trabalhar na história sobre um casamento fracassado, os irmãos comediantes estavam perto dos cinquenta, e não fazia mais sentido filmar um filme sobre bobões com uma mala cheia de dinheiro. Os Farrelly amadureceram, e os personagens de seus filmes foram gradualmente se afastando da bobagem caricatural em direção à mesma bobagem de sempre, mas mais realista. Por isso, “A Garota dos Meus Pesadelos” é um exemplo marcante de comédia que, embora excêntrica, não se afasta nem um pouco da realidade. Afinal, o que poderia ser mais sério do que a situação em que você de repente percebe que se casou com a mulher errada? E essa constatação aconteceu durante a lua de mel. A situação é um impasse, mas, no caso de Eddie, significa que o caminho para a felicidade estará repleto de inúmeras situações hilárias com classificação “R”. Nas praias do resort mexicano, Peter e Bobby rodaram um filme realmente engraçado, com um enredo tão engenhosamente construído que, em determinado momento, você já não sabe mais o que fazer — se deve torcer pelo protagonista ou rir descaradamente das condolências expressadas a ele pelos personagens solidários. Todas as obscenidades presentes no enredo (e com os Farrelly não é diferente) parecem muito harmoniosas em “A Garota dos Meus Pesadelos”, não apenas porque estão habilmente entrelaçadas na ação, mas também porque a própria ação não se concentra nelas nem um pouco (como, digamos, aconteceu nas inúmeras continuações da história de “American Pie”, onde os roteiristas, sem exceção, achavam que quanto mais obsceno, mais engraçado). O foco dos diretores está aqui em como, às vezes, os acontecimentos podem se desenrolar de forma inesperada, quando as pessoas ao redor levam uma piada dita de passagem como se fosse verdade. E essas pessoas são, sem exceção, personalidades marcantes que, independentemente do número de falas que proferem, ficam na memória do espectador por muito tempo. Basta pensar, por exemplo, no tio Tito — gerente do hotel e amigo dos amigos do protagonista, um sujeito simples ao extremo, cuja espontaneidade avassaladora acaba prejudicando quem está ao seu redor. E também o velhinho sem nome, que durante duas semanas ouve em silêncio as divagações de Eddie, que ficou no México sem passaporte. Bem, e uma atração à parte é, sem dúvida, Doc — o pai de Eddie, grande fã de relaxar com garotas na banheira de hidromassagem. O personagem foi interpretado por Jerry Stiller, pai de Ben Stiller, só que agora na vida real. Em suma, “A Garota dos Meus Pesadelos”, que só revelou seu lado pesadelo depois que o noivo colocou o anel de noivado no dedo dela, acabou sendo um exemplo marcante de comédia “adulta”, que pode ser interessante e realmente voltada para um público adulto. Porque o humor aqui, embora muitas vezes caia no vulgar, não é sobrecarregado por nudez, e, em alguns momentos, revela-se bastante sutil e elegante (o pedido da esposa para que ele segure sua mão durante a refeição — já que Stiller é canhoto — é ao mesmo tempo fofo e uma verdadeira idiotice). Além disso, a linha romântica, personificada na imagem da simpática e bondosa Miranda, interpretada por Michelle Monaghan, traz para o filme um elemento de melodrama, e o próprio enredo, que inicialmente segue a linha “eu me casei, e agora é hora de dar o fora dessa idiota”, é redirecionado para um rumo diferente, mais comovente. Para onde o maridinho de cabelos grisalhos terá que lidar mais uma vez com as consequências de seu hábito de se casar com as mulheres erradas e, pela enésima vez, tentar reconquistar aquela com quem, sem dúvida, tudo está bem. Com quem Eddie, sem dúvida, encontrará a felicidade.