O filme “As Dificuldades da Tradução” é uma verdadeira coletânea de paradoxos e contradições. Seu título parece sugerir, metaforicamente, o conteúdo do filme — ao transformar em imagem as ideias que surgiram na mente do diretor, podem ocorrer situações bizarras. Como, por exemplo, o contraste entre o ritmo alucinante da vida na cidade grande e a solidão demorada e sem pressa, ou o talento e a experiência de Bill Murray em oposição ao charme e à espontaneidade de Scarlett Johansson… A lista poderia continuar quase infinitamente; o que surpreende muito mais é que o filme de Sofia Coppola, ao não seguir as normas e regras geralmente aceitas do cinema comercial, tenha sido bem-sucedido não apenas entre o público e a crítica, mas também tenha obtido um ótimo desempenho nas bilheterias mundiais: Orçamento: US$ 4.000.000 (+US$ 13.000.000 – gastos com marketing) Arrecadação nos EUA: US$ 44.500.000 Arrecadação mundial: US$ 119.700.000 Na capital do País do Sol Nascente, Bob Harris, um conhecido ator de TV americano, e Charlotte, uma bela jovem, nada prenunciava — não, não desgraças — mas aventuras, que começaram com seu encontro casual no bar de um hotel de luxo no coração de Tóquio. Cada um deles tem uma série de problemas próprios, além de seus medos, mas os personagens partem em uma viagem pela capital do Japão que se tornará inesquecível para ambos. Ao longo do caminho, eles encontrarão diversas personalidades interessantes, se envolvendo, ao mesmo tempo, em uma série de situações hilárias. O relacionamento entre o já não tão jovem Bob e a bem mais jovem Charlotte não cai na vulgaridade banal nem se resume à cama, como, por exemplo, em “Beleza à Americana”, com Kevin Spacey; mas são, antes, de amizade, e não se limitam apenas a esses dois personagens. Pelo contrário, as personalidades dos heróis se revelam graças ao mundo exterior e às diversas histórias nas quais eles acabam se envolvendo ao longo de mais de uma hora e meia de tempo de tela. O filme, às vezes, chega a lembrar um pouco uma antologia cinematográfica, na qual Bob Harris e sua companheira, no papel de transeuntes casuais, acabam se envolvendo em diferentes episódios por mero acaso. Ao redor do mundo em busca de compreensão Nas outras pessoas, como num espelho, é possível ver o reflexo do seu verdadeiro “eu”. Talvez seja exatamente isso que o personagem de Bill Murray faz, que se perdeu não tanto em Tóquio, mas em si mesmo, e cujos problemas de compreensão não se devem apenas ao desconhecimento da língua japonesa. E se, na magnífica comédia russa *Pessoas Inadequadas*, de Roman Karimov, essa ideia foi usada para provar que não eram apenas todos ao redor que estavam malucos, mas que o personagem principal também havia enlouquecido um pouco, Sofia Coppola, ao contrário, mostra como uma pessoa pode se sentir plena ao prestar atenção à vida que fervilha ao seu redor. É possível falar do filme “As Dificuldades da Tradução” praticamente sem fim, como se fosse um bom livro — e as discussões não se referem ao brilho superficial e aos efeitos visuais, mas ao enredo e à ideia. Com relação a isso, aliás, nos filmes da dinastia Coppola nunca há problemas. A imagem, no entanto, em alguns momentos não é das melhores — a iluminação simples, ao estilo das séries de TV, e a ausência de quaisquer efeitos adicionais chamam a atenção. Por outro lado, o elenco compensa com folga quaisquer deficiências, e não estamos falando apenas de Bill Murray e Scarlett Johansson, que interpretaram os papéis principais: Giovanni Ribisi como John; Akiko Takeshita como a Srta. Kawasaki; Anna Faris como Kelly. Um filme leve com um duplo sentido. Se a gente parar para pensar, fica claro por que o filme “As Dificuldades da Tradução” se tornou um sucesso de bilheteria — ele é voltado para um público bem grande. Percebe-se a mão de Sofia Coppola, que traz sua visão autoral para todos os seus trabalhos. Se não nos detivermos nos detalhes, o filme passa num piscar de olhos e deixa, além de uma dúzia de sorrisos sinceros durante a exibição, as mais agradáveis impressões. Mas os apreciadores e conhecedores encontrarão no filme algo muito maior: uma história inspiradora e que leva à reflexão.