No início do filme, os espectadores conhecem Anne (Olivia Colman), que retorna ao seu apartamento grande, imponente e aconchegante em Londres, decorado com bom gosto, repleto de estantes de livros e com paredes em azul-celeste, e cumprimenta seu pai, Anthony (Anthony Hopkins), de 80 anos. Ele está idoso e precisa de cuidados, tem lapsos de memória, embora não tenha perdido seu espírito combativo e ousado. O velho não suporta nenhuma cuidadora e xinga-as tanto que elas fogem dele em pouco tempo. Ann poderia contratar outro cuidador, mas não é tão simples assim. Por fim, ela conta ao pai que vai se mudar para Paris para ficar com o homem que ama. Portanto, não há escolha. Ela não consegue se forçar a dizer isso, mas precisa — provavelmente, é hora de Anthony ir para um lar de idosos. Ao entrar na sala de estar, Anthony encontra um homem que está sentado tranquilamente, lendo o jornal “The Guardian”. É o marido de sua filha (Mark Gatiss); todos moram juntos na casa. Poucos instantes depois, a filha volta, mas agora é outra mulher (Olivia Williams), que anuncia que comprou uma galinha para preparar o jantar. Anthony, atordoado com essa mudança na realidade, tenta se adaptar e menciona o marido, enquanto a filha o encara com um olhar vazio. Afinal, na realidade dela não há nenhum marido; eles se divorciaram há cinco anos. Também não há galinha. Qual cenário é real e qual é uma alucinação de Anthony? Os espectadores não conseguem dizer com certeza, mas, em ambos os casos, o que vemos parece real, e essa é uma jogada genial do filme. O diretor nos coloca dentro de uma realidade convincente apenas para para mostrar que tudo não passava de uma miragem. O filme nos dá pequenas pistas para nos orientarmos, mas, diante dos nossos olhos, a certeza se transforma em areia movediça. Ou será que a realidade até então já era uma miragem? O filme “O Pai” trata do estado da mente humana e dos problemas psiquáticos na velhice. O filme transporta os espectadores para a mente de um idoso que está perdendo a razão e nos convida a vivenciar, junto com os personagens, a experiência da demência, fazendo-nos compreender que Anthony está perdendo mais do que a memória — ele está perdendo a si mesmo.