Filmes sobre vigaristas de todos os tipos, que invariavelmente levam a casa grande, agradam a muita gente. Principalmente, é claro, a pessoas cultas e eruditas, que facilmente poderiam dar um golpe semelhante, se encontrassem uns completos idiotas no caminho. E se os vigaristas forem interpretados por atores idosos de boa reputação, que além disso são bastante conhecidos, então esse filme certamente promete se tornar um sucesso. “A Melhor Oferta” — um filme sobre vigaristas idosos. O chefe da maior casa de leilões, Virgil Oldman (Geoffrey Rush, de “Piratas do Caribe”) e seu velho amigo Billy (Donald Sutherland) trapaceiam discretamente com as pinturas entregues em comissão, para comprá-las por uma pechincha. Na verdade, quem compra é Oldman, e Billy é apenas seu laranja na sala de leilões. E o senhor Oldman acumulou para si uma enorme galeria, repleta de obras-primas. Mas, certa vez, o senhor Oldman recebe uma proposta para elaborar um catálogo de antiguidades de uma certa senhora misteriosa e, na casa dela, começa a encontrar peças de um estranho mecanismo. Levando-as discretamente da casa da cliente, ele, junto com seu mecânico de confiança, Robert (Jim Sturgess, de “O Atlas das Nuvens”) tenta montar o mecanismo por completo. É claro que nem tudo é tão simples assim. Mas recontar o enredo do filme em detalhes é estragar a experiência de assisti-lo. É verdade que qualquer espectador minimamente experiente já entende, logo na segunda visita de Virgil Oldman àquela casa estranha, como a história vai terminar. Para mim, pelo menos, ficou claro. E, embora eu já tivesse adivinhado o final, isso não estragou minha experiência com o filme. Foi muito divertido observar como um senhor idoso, formal e de princípios, que tem um enorme armário de luvas — as quais ele usa sem tirar nem mesmo durante as refeições -, que usa talheres personalizados até no restaurante mais caro e que tinge o cabelo, se transforma em um louco desgrenhado, com a gravata desarrumada e o olhar brilhante. São justamente Geoffrey Rush e Donald Sutherland, que, aliás, não aparece com frequência em cena e que conferem ao filme charme e aristocracia. Mesmo apesar de serem uns idiotas. Este é um filme sobre um plano criminoso muito complexo e confuso, mas o plano é tão improvável e depende tanto de todo tipo de circunstâncias externas que chega a ser decepcionante. Claro, já vi filmes ainda mais absurdos, mas mesmo assim é decepcionante que “A Melhor Oferta” não tenha me surpreendido com um final inesperado. Será que os roteiristas estão em falta? Onde está o desfecho inesperado, como em “A Ilusão do Engano”? Ou isso foi, afinal, um drama? Então fica claro por que foram necessários mais quinze minutos após o desfecho lógico da trama para mostrar o agitado Rush — Oldman se debatendo e deixar de mostrar completamente o Billy — Sutherland. Portanto, esqueçam que se trata de um thriller. É um melodrama com elementos de filme de aventura. Tem até cenas eróticas de Rush com uma garota jovem, que indignaram muitos apreciadores. Para mim, porém, parece que elas se encaixam perfeitamente na concepção do filme e foram inseridas no lugar certo. E, claro, escolheram uma trilha sonora à altura para um filme assim. As melodias melancólicas de Ennio Morricone ilustram muito bem toda a história. É um filme nada mal para assistir uma vez com a esposa ou o marido, mas, exatamente, só uma vez. Além disso, dura mais de duas horas e, embora haja bastante ação nessas duas horas, ainda assim é um pouco cansativo.