Meninas são uma força assustadora. Mesmo as bonitas. E meninas assustadoras são o pior de tudo. Mas não estamos falando de medo agora. E, no geral, não é sobre meninas. E nem mesmo sobre costurar um colarinho. Trata-se dos estereótipos que corroem o cinema por dentro. A culpa é da politicamente correta, da emancipação ou da TPM global, mas o fato é que o sexo frágil, em sua maioria, deixou de ser tal na tela. Garotas, meninas e até mesmo avós do cinema mundial facilmente esmagam repolho com um martelo de uma só vez, derrubam árvores com as próprias mãos, bombeiam centenas de barris de petróleo, projetam iPhones da 8ª geração na hora e, num piscar de olhos, provam o teorema de Fermat antes do jantar. Para que servem, afinal, os homens na periferia do quadro — é um enigma ainda maior do que o próprio teorema. Se antes o autista e barbudo Léon ensinava uma loli caprichosa a manusear uma pistola para não atirar na própria perna, hoje as lolis do cinema, ao que parece, já nascem com pistolas e, desde a idade escolar, começam a ganhar a vida atirando em marginais. É sobre isso, aliás, que trata o filme “Violet e Daisy”, que já havia conquistado a Rússia em julho, mas só agora chegou à hospitaleira terra bielorrussa. Um delicado filme policial de autor sobre duas garotas assassinas. Do tipo, sabe, “Tarantino light”. Bem, bem “light”. Quase no nível da banda “Light Sound”. Com música, montagem e mensagens a condizer. De verdade: que todos morram e que venham os vestidinhos. Violet e Daisy. Violeta e Margarida. Alunas fofas com rostos de gatinhos e a alma coletiva da Acska Sotona. Adoram música pop e doces. E se enfeitar. Além disso, são assassinas de aluguel, que por um ou outro centavo eliminam os inimigos do chefão do crime local. Não são exatamente trabalhadoras incansáveis, mas não se esquivam do trabalho. Especialmente quando chega às lojas um vestido novo da sua ídola pop, para o qual precisam muito de grana. E aí vem o trabalho. Um homem corpulento de olhos tristes, que roubou descaradamente algo da máfia e se meteu em encrenca. Acabar com ele — e logo correr atrás do vestido. Mas o destino tem outros planos. Primeiro, o homem não parece se recusa a morrer, e ainda oferece biscoitos, sem veneno. Depois, de repente, acabam as balas, e a loja fica bem no fim da rua. Em seguida, uma empresa concorrente entra na jogada, que só sabe vender dormentes. Ao mesmo tempo, eles vão controlar os próprios. E, no final, vai começar um drama, um verdadeiro drama — com halucinações, sonhos, o plano astral e tiros de amigos em meio às lágrimas de crocodilo. E vai acabar que nem mesmo as meninas são imunes a nada que seja humano. E vocês ficam falando só de vestidinhos… Mesmo que Tarantino se injetasse de estrogênio até a raiz dos dentes, ele ainda assim não conseguiria filmar uma homenagem feminina tão delicada a si mesmo. Esse filme poderia muito bem ser colado em álbuns de meninas, se é que esses ainda existem — com florzinhas, arabescos e rabiscos feitos com canetas hidrográficas de várias cores. É praticamente uma pequena versão de “Pulp Fiction” sob uma espessa camada de sorvete de baunilha com morango. Parece delicioso, faz mal à silhueta, mas é difícil resistir. É verdade que a narrativa é fragmentada — como a mente feminina comum às vésperas de uma grande confusão. Duas garotas bem diferentes entram com ânimo na cena. Elas lançam olhares maliciosos, atiram sem parar, e a morena até manuseia com bastante destreza um extintor contra os inimigos. O espectador com espírito crítico suspira aliviado, absorvendo em massa o humor negro leve e a tagarelice significativa e sem sentido no estilo de Julls e Vincent. E então, de repente, um pedaço da vida cotidiana das garotas — com cama compartilhada, dancinhas, aniversário com chapéu e vestidinho de uma estrela pop chamada Barbie de Domingo, que é preciso muito comprar, mas não tem dinheiro — cai como uma pedra no coração. O clichê começa a dar sinais de desgaste — o espectador olha desconfiado para o relógio. Mas, de repente, o gênero policial volta a invadir a cena na figura do humorístico Treho, e logo em seguida o falecido (que descanse em paz) Gandolfini entra em cena com uma expressão que deixa claro de imediato: não há como escapar da ironia e do drama. E, de fato, não há como escapar. A seguir, haverá muito, se não absurdo, com certeza autismo. Embora os resquícios de Tarantino ainda se façam sentir com uma manada de touros marchando em uníssono, inúmeros ferimentos de bala e pessoas pulando nos cadáveres recém-abatidos. Mas quem vai mandar no final, de qualquer forma, será o universo de “Amélie”. Como interpretar essa mistura? Com um olhar disperso. Sem se prender a episódios e símbolos isolados. Pois a busca pelo sentido da vida neste filme está fadada a uma descoberta jesuíta: não há nele nem sentido, nem vida. Há garotas, com pistolas. E, mesmo assim, uma delas é uma amadora. Quanto às garotas, tudo é simples. Elas, ao que parece, simplesmente bobas, mas bastante descoladas. São apenas florzinhas. Essa espontaneidade fica um pouco melhor na interpretação de Saoirse Ronan, porque ela aprendeu a andar com uma expressão de perplexidade tanto em “Hanna”, quanto em “A Hóspede” e até mesmo em “Bonitos Ossos”. Já quanto às armas automáticas, foi justamente “Hanna” que a acostumou a elas. Quanto a Alexis Bledel, o caso é mais complicado. Apesar da aparência de ninfeta, a moça, espere aí, já tem 31 anos. E isso faz diferença. Porque mulheres bobinhas sempre perdem em charme para meninas bobinhas. Mesmo que essas mulheres se pareçam com a jovem Carla Gugino, e o sobrenome delas desperte associações ruins nos corações dos falantes de russo. A situação é bem diferente com o enigmático Michael. A carga de tristeza concebida pelo diretor aumenta exponencialmente quando se vê na tela o recém-falecido Gandolfini, que ali mesmo, na tela, está prestes a falecer. Isso parece até mais impressionante do que a torre do sino da felicidade de Balabanov, que desabou no 4 0º dia após a morte do diretor. O vivo e taciturno Gandolfini acerta suas contas e se despede do espectador. E olha de um jeito que como se soubesse. E, sim, ele continua sendo o mesmo Tony Soprano. E, sim, ele não vai mais ser outro. Juntos, esse elenco encena a peça simples proposta sobre amizade, consciência e a completa ausência de ambas em um nível muito alto. Sem muita profundidade nas personagens ou individualidades dos atores, mas não dá vontade de matar ninguém. E, mesmo assim, ainda não se entende como o estreante Fletcher (que tem em seu currículo apenas o roteiro vencedor do Oscar de “O Tesouro” sobre uma menina negra eternamente grávida que decidiu sair da escuridão para a luz do conhecimento)), tenha conseguido filmar um cinema tão “feminino”. Mesmo que ao estilo Tarantino, é feminino até a raiz. Cada tiro, cada golpe de extintor de incêndio contra um rosto feio é envolto por tanta quantidade de babados, enfeites e cachos da paixão que dá a impressão de que o roteirista-diretor viveu durante anos na cabeça de uma estudante especialmente treinada. É nessa densa mistura de todas essas alucinações ao estilo de “Amélie” e de um humor negro leve — cuja hora, para ser sincero, já passou — que este filme surge. Estranho, longe de ser uma obra-prima, mas de alguma forma cativante. Repleto de rostos conhecidos e clichês de filmes de bandidos, mas que não rendeu sucesso de bilheteria. Só de flores, quer dizer, não se fica satisfeito. Especialmente quando elas florescem no túmulo de alguém. Nota: 6,5 de 10 pontos Pode assistir ao filme “Violet e Daisy” gratuitamente em qualidade HD 720 no nosso site agora mesmo!