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A Última Casa
The Last House on the Left
7
/ 10
6.5
2009
Crime
1 h 50 min
Estados Unidos
R
A tendência de refilmar tudo e qualquer coisa, que tomou conta da indústria cinematográfica de Hollywood no início do século XXI e que persiste até hoje, atingiu também um gênero tão específico, mas extremamente divertido (e, portanto, lucrativo), como o filme de terror. Ao longo de alguns anos, na rica história do cinema de Hollywood, as principais e mais famosas histórias sangrentas do passado foram desenterradas e ressuscitadas no cinema contemporâneo. Em 2003, surgiu o remake de “O Massacre da Serra Elétrica” — filme clássico de Tobe Hooper, que o tornou famoso no longínquo ano de 1974 e que, na verdade, continua sendo até hoje sua única obra amplamente conhecida. Já o legado de Wes Craven, um dos principais “maníacos do cinema” no meio dos diretores, é repleto de inúmeros lançamentos que, em sua época, lotavam as salas de cinema e, por isso, agora estão simplesmente pedindo para serem levados à mesa do roteirista como base para o desenvolvimento de novas versões. Em 2010, foi lançado nos cinemas um remake contemporâneo da história do inquieto Freddy Krueger. O novo “A Hora do Pesadelo”, apesar das críticas negativas, teve boa bilheteria, e agora circulam rumores sobre a produção de uma continuação da história. “As Colinas Têm Olhos”, do longínquo ano de 1977, gerou logo dois remakes — um filme de excelente qualidade, de 2006, e outro mediano, de 2007. O “pai” do original participou como roteirista na produção de ambas. O não tão antigo “O Grito”, que estreou nas telas em 1996, ganhou recentemente sua quarta adaptação cinematográfica graças aos esforços do próprio Craven. Além disso, há algum tempo surgiram notícias de que os produtores estariam supostamente considerando a possibilidade de colocar em produção uma nova versão de “As Pessoas debaixo da Escada”, de 1991. No momento, nada se sabe sobre o projeto, então é bem provável que ele não venha a acontecer. Misturar terror com comédia nos dias de hoje é uma opção bastante arriscada, embora às vezes seja bem-sucedida. O impacto da estreia, na visão de Craven, estava diretamente relacionado ao grau de sofisticação da violência nas cenas. Hoje, porém, vamos falar sobre o remake de “A Última Casa à Esquerda”. Lembro-me de que o original de 1972 — a estreia de Wes Craven no cinema — causou bastante alvoroço na época. A história sobre bandidos que, primeiro, cometeram “crimes” e, depois, pagaram um preço igualmente alto por esses atos, colocou em pauta a questão dos limites aceitáveis da violência exibida na tela grande. E isso apesar de o próprio diretor ter sido obrigado a cortar bastante o filme, removendo dele as cenas mais violentas (a comissão da MPAA, responsável pela classificação dos filmes, ficou chocada com o que ele havia filmado). Só depois disso “A Última Casa à Esquerda” chegou aos cinemas. No século XXI, o autor do original decidiu não refilmar sua primeira obra por conta própria e limitou-se a participar do projeto apenas como produtor. A cadeira de diretor ficou a cargo do grego Dennis Iliadis, conhecido em seu país sobretudo pelo filme cru e realista intitulado “Hardcore”, que narra o cotidiano das prostitutas em Atenas. É bem possível que fosse exatamente esse estilo narrativo que se esperava ver também em sua versão da história de vingança. Mas Iliadis fez tudo do seu jeito. E acertou em cheio. Desde sempre, costuma-se dizer que os filmes de terror — categoria à qual este filme formalmente se enquadra — são, antes de tudo, uma atração cinematográfica para jovens, destinada a assustar o espectador com cenas que retratam sangue e torturas. É assim que se entretém a juventude nos dias de hoje. Mas voltemos ao filme. Os roteiristas do remake, Adam Alleka (sem grandes méritos) e o renomado Carl Ellsworth (“Xena, a Rainha Guerreira”, “Paranoia” e “Voo Noturno”), usando como base o original de trinta anos atrás, retiraram dele apenas o elenco de personagens principais e as linhas gerais do enredo. A partir daí, começou o trabalho de ampliar e aprofundar a história sobre a casa à beira do lago na floresta. A questão aqui é que o filme original apresenta um problema muito significativo. Era, na essência, um filme “sombrio”. Wesley Earl, um “tal” desconhecido na época e que, além disso, contava com recursos financeiros bastante limitados, propôs-se a se destacar o máximo possível com sua obra de estreia. Para Craven, o impacto da estreia estava diretamente ligado ao grau de sofisticação da violência nas cenas. Por isso, os personagens daquele filme passavam a maior parte do tempo correndo pela floresta (sem dinheiro — filme na floresta), enquanto as vítimas eram espancadas, estupradas e esfaqueadas. Havia tantos massacres nas cenas que a comissão de classificação mandou o estreante de volta para casa. O que aconteceu depois, vocês já sabem. O trabalho do novato poderia muito bem ter ficado como mais uma das inúmeras produções sangrentas da época, de mau gosto e que quase ninguém achava interessante. Só que aquele rapaz acabou construindo uma carreira sólida em Hollywood e, por isso, hoje o interesse por seu primeiro filme é garantido automaticamente, independentemente da presença (na verdade, da ausência) de quaisquer qualidades artísticas nele. Foi a partir dessa obra sombria que o diretor e os roteiristas tiveram que criar uma “delícia” para o espectador contemporâneo. Os críticos, em geral, não ficaram impressionados, mas o fato é que Iliadis e sua equipe conseguiram. A primeira coisa que chama a atenção ao assistir é que “A Última Casa à Esquerda”, de 2009, é um exemplo marcante de um produto lançado pela indústria americana, na qual entraram mestres europeus. Por isso, a imagem do filme é suave e polida ao estilo hollywoodiano, com iluminação notável e montagem fluida. E, por meio desses recursos, recria-se a ação que, embora descreva a violência em suas diversas manifestações, é retratada com requinte e bom gosto — características mais próprias do cinema do Velho Mundo. Por isso, o enredo inicialmente simples sobre vilões que recebem o que merecem, nas mãos de um diretor europeu, transforma-se em uma história realmente interessante sobre sofrimento e superação, sobre o bem e o mal, que recebem o que merecem. O trash se transforma em drama. Em primeiro lugar, o drama de um personagem específico — Justin, filho do chefe de uma gangue de criminosos. Seu destino não é nada invejável: ser filho de um malfeitor, mas tão fraco de espírito a ponto de não ter coragem de dizer ao pai que não quer mais viver segundo as regras dele, no mundo dele. O herói nem sequer fala, apenas faz em silêncio tudo o que lhe mandam. A inércia, mais cedo ou mais tarde, leva à catástrofe. No caso de Justin, esse princípio se confirmou quando, por culpa dele, duas garotas que ele nem conhecia se viram em apuros, o que, além disso, custou a vida a uma delas. Depois de passar com elas por todo o inferno que se seguiu até o fim, e de finalmente fazer, nesse processo, sua escolha angustiante, Justin, sem dúvida, não expiou totalmente sua culpa (tanto perante Mary quanto perante a amiga dela), mas, ao mesmo tempo, fez tudo o que podia para consertar o que já não tinha mais como ser consertado. E a consciência o atormentará até o fim de seus dias. Mas, pelo menos, agora ele está livre. O diretor parece nos sussurrar que estamos vendo pela última vez uma alma inocente antes que aconteça aquilo que dividirá toda a sua existência em “antes” e “depois”. O tema principal da superação, por sua vez, é explorado nesta história em torno da personagem interpretada por Sara Paxton. Mary, filha de uma família abastada que passou um fim de semana tão desastroso, é jovem, ingênua e nem sempre consegue avaliar adequadamente as consequências de seus atos. E, como de costume, são justamente as criaturas mais frágeis da trama que enfrentam as provações mais difíceis. O diretor transmite isso de forma bastante clara logo no início do filme. E na maneira como ele faz isso, revela-se um traço verdadeiramente europeu. A cena em que Mary toma banho, filmada em plano rápido: close-ups de gotas de suor em sua pele limpa (literal e figurativamente); a música que soa ao mesmo tempo no quadro… O diretor parece nos sussurrar que estamos vendo pela última vez uma alma inocente antes que aconteça aquilo que dividirá toda a sua existência em “antes” e “depois”. E as cenas seguintes de um mergulho espontâneo no lago, ao som da magnífica música de John Murphy (aliás, também europeu), convencem definitivamente o espectador atento de que hoje acontecerá algo irreparável. Ainda nada aconteceu, mas o drama já começou. E já se sente o cheiro de tragédia no ar. É assim que sabem filmar na Europa, e é assim que quase nunca filmam nos Estados Unidos. Todos os acontecimentos que se seguem à partida desnecessária de Mary de casa são filmados com uma dose invejável de dramatismo e têm como objetivo principal despertar a empatia do espectador. É justamente isso que constitui o principal desafio para quem pretende ver aqui uma História, e não “carne”. Para aqueles que vieram em busca de “carne”, foi introduzida no enredo (obviamente, a insistência dos produtores) uma cena de estupro — repugnante e sórdida, além de destoar completamente do tom geral da narrativa. O diretor, com o apoio do diretor de fotografia, amenizou-a da melhor maneira possível, concentrando-se em mostrar as mãos da vítima agarradas ao solo sujo da floresta; tornando-a, assim, insuportável, mas não tão repugnante. E o plano que se segue a toda essa obscenidade, com o estuprador e sua namorada simplesmente parados em silêncio no local — ilógico e como se não tivesse sido dirigido -, funciona como uma espécie de colagem. Quando Iliadis parece exalar: “Ufa, conseguimos!”, e, tendo cumprido perante os produtores a exigência de sujeira na cena, continua sua narrativa dramática. Daqui para frente vai ficar ainda pior. Na verdade, não para a própria Mary, mas para seus pais. Quando sua única (agora única) filha estiver deitada sobre a mesinha de centro, atormentada e exausta. Quando lhes for revelada a terrível verdade sobre o que aconteceu com ela naquela noite chuvosa. Nesses momentos, o nível de drama chega ao máximo, e é simplesmente insuportável olhar para o rosto do pai de Mary (que se prepara para perfurar o pulmão da filha mais uma vez, a fim de drenar o líquido acumulado ali), com os olhos cheios de suor. Mas tanto ele quanto o espectador precisam suportar isso, cerrar os dentes e aguentar firme. Simplesmente porque não há outra maneira. E então virá a vingança — a surpresa inesperada e a principal recompensa para o espectador de “A Última Casa à Esquerda”, que passou por todas as provações ao lado dos personagens. Pode-se criticar esse filme o quanto quiser (há quem faça isso) pelo fato de os criadores terem se concentrado demais na violência (e, na verdade, foram os produtores que insistiram nisso), mas, seja como for, a alegria que se sente quando o primeiro martelo penetra no crânio do vilão é difícil de comparar com qualquer outra coisa. A alegria que você sente quando o primeiro martelo se crava no crânio do vilão é difícil de comparar a qualquer outra coisa. Com o martelo na cabeça, ele vai ficar ali no chão e não vai se levantar, como se fosse algum Jason Voorhees. O que confirma mais uma vez que a obra de Iliadis, embora se enquadre formalmente na categoria de filmes de terror para jovens, na verdade é uma narrativa séria e dramática, por mais que os produtores tentem incluir estupros nela. E, em contraponto aos exclamações de alguma estudante do ensino médio do tipo “Que loucura, gente!”, essa história sobre a vingança dos pais por seu filho pode ser interessante também para adultos que já têm filhos. Ou para aqueles que sabem não apenas assistir, mas também ouvir. E que percebem as insinuações de ódio de classe nas falas da namorada do estuprador, que acabou levando um tiro no olho por ter sido cúmplice dos crimes. A sofisticação da maneira como a vida do vilão principal foi ceifada é uma última homenagem às tradições do terror do diretor do filme, que criou uma obra brutal, mas refinada, que se destaca entre as semelhantes. E as inserções de quadros estáticos no início da ação e após o desfecho, que mostram o cenário ao redor da casa malfadada à beira do lago na floresta — como se nos dissessem que a vida continua mesmo apesar de todo o horror vivido -, reforçam ainda mais essa opinião.
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Trailer
País:
Estados Unidos
Gênero:
Crime, Thriller, Terror, Drama
Duração:
110 min / 1 h 50 min
Produção:
Rogue Pictures, Film Afrika, Sean S. Cunningham Films, The Night Co., Focus Features
Diretor:
Dennis Iliadis
Elenco:
Sara Paxton, Tony Goldwyn, Monica Potter, Garret Dillahunt, Spencer Treat Clark, Aaron Paul, Riki Lindhome, Martha MacIsaac, Josh Coxx, Michael Bowen
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