Dar vida a mortos-vivos sinistros não é coisa para quem tem estômago fraco. Muitos tentam — poucos conseguem. Um morto-vivo é uma coisa caprichosa. Basta virá-lo um pouquinho errado que ele já começa a cheirar mal e se desintegrar. Perguntem lá ao Lovecraft. Embora ele também já tenha falecido, então é melhor não arriscarem. Na tela grande, os mortos-vivos ressuscitam com um pouco mais de frequência do que na porta ao lado e, mesmo assim, muitos desses caras já foram para o outro mundo. Principalmente quando desenterram do chão um cadáver que não é o deles. Veja, por exemplo, Robert Schwentke. Lá vivia um diretor, filmando velhinhos em uma marcha, e então, de repente, ele foi sugado para dentro de Barry Sonnenfeld. Não para dentro do próprio Barry, é claro (senão teria saído um trash de primeira), mas para dentro do seu universo criativo. Mais especificamente — nos vastos universos de “Homens de Preto”. Ou seja, “A Patrulha Fantasma” é, mais ou menos, uma adaptação do quadrinho original. Só que esse quadrinho não é, de forma alguma, original. Um departamento secreto para capturar criaturas incomuns, dois parceiros que estão sempre brigando (um veterano e um novato), um arsenal especial de aparência imponente, a ameaça do Apocalipse, um artefato secreto, uma vitória arrancada com as últimas forças, com um toque de humor e palavrões — não lembra nada? De jeito nenhum? Aparentemente, os caras de ternos escuros realmente brilharam diante dos seus olhos com seu truque anti-memória. Mas esqueceram de fazer isso com Robert Schwentke. E ele, inspirado, levou para o seu “Patrulha” tudo o que conseguiu lembrar. E conseguiu lembrar bastante. Borrifando tudo isso com a carisma tradicional de Bridges e a tradicional falta dela em Reynolds, o diretor apostou em diálogos picantes, uma troca de farpas entre o chinês e a loira e uma perseguição multimilionária pelos telhados. O resultado ficou um pouco repetitivo, mas saboroso. E, o mais importante, não é muito longo. Dá para engolir — os pedaços passam. Através de prédios e carros, irrompe na tela uma criatura parecida com um gordo, dentro da qual se infla um porco de vinte pudas. O bicho salta pelas paredes, grunhe guturalmente e xinga de forma desrespeitosa. Em seguida, fazendo barulho com armas, vêm a toda velocidade um cowboy idoso e um playboy musculoso. A narração afirma que este último é ele mesmo. E que ele chegou a esse estado de miséria em apenas três ou quatro dias. Mergulhando no passado, descobrimos que foi exatamente assim que tudo aconteceu. O policial de segunda categoria Nick Walker (aquele mesmo, o musculoso) apreende, junto com seu parceiro, cinco quilos de lingotes de ouro durante uma operação antidrogas. Primeiro, ele os enterra no jardim, mas depois, movido pela consciência, decide entregar tudo aos superiores. O parceiro, ressentido, reage à proposta com uma rajada de tiros de submetralhadora — e eis que nosso Nick, em meio a um impressionante quadro congelado, ascende rapidamente aos céus. Mas não para os portões do paraíso, e sim para a sala de triagem. Lá, uma senhora carrancuda de botas brancas oferece duas opções: ou pelo tribunal (o que está fora de questão, já que o ex-policial decidiu pecar), ou para o esquadrão ultraterrestre de hussardos voadores por uns cem anos. A missão: capturar os mortos que não querem descansar em paz, mas vagam pela terra pecaminosa e apodrecem de forma contagiosa. O policial, naturalmente, escolhe a carreira policial e recebe como equipamento uma tatuagem ardente, uma pistola energética e um parceiro do Velho Oeste que xinga sem parar, com senso de humor jesuíta e experiência de uns dois séculos. O nome do xerife é Roysifus Palsifer, o que, na opinião de Nick, se parece muito com “sífilis”. Aliás, na opinião de Roysifus, Nick se parece com um cocô — verde e ainda não formado. E assim ficam as coisas. À frente deles estão desentendimentos e atritos, a caçada desajeitada a uma podridão fugitiva e a desmascaramento de uma conspiração de mortos-vivos, baseada na renovação de um falomorfo dourado. Se não conseguirem conter os mortos-vivos — é o fim de tudo. Se fizerem tudo certinho — sejam bem-vindos a muitos anos de serviço feliz, pelo qual não ganham medalhas, mas levam uma surra. É esse o lance. E vocês sabiam que, se polvilharem um morto com temperos, vai sair dele uma porcaria do outro lado? Parece que só o diretor Schwentke sabia disso. Não foi à toa que ele se esforçou ao máximo para apimentar uma história em quadrinhos que já era natimorta. E, no fim das contas, o golem realmente ganhou vida e até fez algumas travessuras para divertir o público que comia pipoca. O poder da arte — é assim mesmo, pungente. Na verdade, com esse filme, tudo ficou claro desde o primeiro trailer. Zonnenfeld foi criticado sem dó e todo o projeto foi reduzido a piadas banais. Tipo: “Barik, a gente não está levando isso a sério. Vamos dar umas voltas e deixar perto da porta de casa. A mãe não vai xingar, e o garoto fica de boa. O que Barik respondeu, a história não especifica, mas as voltas foram dadas com toda a alma. 130 milhões para a adaptação cinematográfica de uma história em quadrinhos — hoje em dia isso não é novidade. Já deram até mais, desde que a galinha ponha ovos. Da mesma forma que os ovos são todos iguais, isso pouco importa para os financiadores. Basta colocá-los de perfil — e ninguém vai perceber. E foi de perfil que os colocaram, quatro em cada fileira. Um pouco dos “gostbusters” por aqui, um pouco dos “meninblacks” por ali. Um pouco de tudo no quadro — um blockbuster completo. Não é preciso ter a perspicácia de Tarantino para perceber como Bridges, sem perder nem um pingo de sua essência, transborda para as lacunas do roteiro seu personagem Cogburn, o “Matador”, de “O Punho de Ferro”. E Reynolds, sem rodeios, copia descaradamente o super-homem verde do monocromático “Lanterna Verde”. Que o armamento, o cenário, a confusão, o conflito, o clímax, o epicentro, o Armagedom e a epígrafe também foram descaradamente copiados de lançamentos recentes. Mais uma vez, o fato de o público ver no velhinho e no novato uma bomba sexual com uma asiática de rugas finas também não é, de longe, um tema novo, já explorado até os ossos. Depois de Kutsenko, valeria a pena cercá-la com uma cerca elétrica de alta voltagem, para que pessoas decentes não fossem tentadas por caminhos fáceis. Sobre Kevin Bacon, é melhor nem falar — há duas décadas ele alimenta dentro de si um cara escorregadio. Ele nem precisa se esforçar — basta filmar seu dia a dia e fazer um corte rápido na edição. Tudo isso seria triste se os roteiristas não tivessem jogado diálogos afiados nesse tambor xamânico que criaram. E o filme ganhou vida. Roy e Nick, durante toda a hora e meia, não se dão ao trabalho de ficar em silêncio. Eles provocam, zoam e fazem palhaçadas, como aquelas vovós no banquinho que, por falta de garotas na escadaria, xingam o zelador de prostituta. Bridges se destaca especialmente com sua atuação excêntrica, já que, pela primeira vez desde “O Grande Lebowski”, lhe foi permitido dizer o que bem entendesse. E ele inventa muita coisa. Reynolds, sem dúvida, fica atrás na pontuação, mas se vinga no diálogo sobre o coiote que transava com as órbitas oculares dos cowboys. No geral, porém, é apenas graças à dupla que vive brigando incessantemente que o diretor consegue, mais ou menos, dar conta do orçamento que lhe foi dado, na forma de uma porcaria sem graça, destruições medianas e um estereoscópio banal. A primeira parte não impressiona pela variedade, mas compensa pela quantidade. Com os segundos, a situação é padrão: os mosquitos não incomodam — e graças a Deus. O terceiro simplesmente está lá. Gostaria especialmente de destacar a participação especial de Robert Nepper no papel de uma lixeira saltitante. Os fãs da série “Prison Break” devem estar satisfeitos com o desenvolvimento do personagem, sem dúvida. Bem, e o cara com a metralhadora ficou nada mal. Ele em si é tranquilo, mas tem uma cara vermelha pra caramba. Enfim, se você não se importa com caviar de esturjão de quinta frescura e temperatura média na sala, então “A Patrulha” vai te proporcionar algumas dezenas de minutos animados. Caras legais, terabytes suculentos, humor fora do comum. Afinal, até os mortos podem aquecer a alma. O importante é prepará-los da maneira certa.